09 Março 2011

Lição de um Mestre ao seu Aprendiz - III


(Nota: as lições anteriormente publicadas neste blogue foram escritas por Jean-Pierre Grassi e estão aqui e aqui)

Meu Irmão:

A melhor forma de manifestar os calorosos sentimentos fraternos de toda esta Respeitável Loja para contigo é sublinhar que não foste simplesmente aceite aqui, não foste simplesmente admitido à Iniciação, foste verdadeiramente cooptado para este grupo, para esta Loja.

Cada vez que alguém entra ou sai da Loja, esta modifica-se, pois a Loja é o conjunto de todos os seus obreiros, a soma de todas as suas capacidades, a multiplicação de todas as suas potencialidades, a divisão por todos dos pesares de cada um, enfim, a Loja é um conjunto vivo cujas células são os seus obreiros. E se, quando um obreiro parte, a Loja pouco perde, perde apenas as suas potencialidades futuras, conservando tudo o que esse obreiro, enquanto entre nós esteve aqui deixou, aqui ensinou, connosco partilhou, a cada um de nós influenciou, sempre que um novo elemento é cooptado pelos que já a integram para também nela ingressar, muito ela ganha, muito ela se transfigura, porque os novos, aprendendo, integrando-se, partilhando, novas capacidades, outros ensinamentos, trazem e juntam.

Meu Irmão: a melhor forma de demonstrar os calorosos sentimentos fraternos de toda esta Respeitável Loja para contigo é deixar claro que a Loja em ti, na tua entrada, na tua junção a nós, deposita o que de mais precioso tem, a sua própria identidade, confiante e certa que não só não a irás degradar, como serás fator do seu aprimoramento.

Bem-vindo, pois, meu Irmão. Estamos certos que honrarás a confiança que em ti depositámos. Procuraremos corresponder à esperança que em nós tens.

Quanto à sucinta explicação do sentido e finalidade da Arte Real, uma frase chega: é um meio, um método, um caminho, um ambiente, para o teu aperfeiçoamento pessoal, moral, cívico e espiritual. Os primeiros tempos são de silêncio e de observação. Olha, vê, ouve, sobretudo medita, relaciona, interpreta. Através de símbolos, de parábolas, de linguagem figurada, nada te será ensinado, mas muito aprenderás, pela melhor forma de aprender que existe: por ti mesmo, em função da tua própria experiência. Este trabalho só termina à meia-noite. Fá-lo bem, para que, chegada essa hora, estejas satisfeito contigo próprio.

Começa por olhar em volta e atentar nos pormenores. Todos têm significado. Procura entendê-los. Não tenhas receio de perguntar e, sobretudo, não te esqueças nunca que as melhores respostas que irás receber serão aquelas que te não satisfizerem e te levarão a procurar mais longe ou diferentemente.

Lê muito atentamente o ritual e catecismo que hoje recebeste. Fá-lo sem pressas, mas frequente e persistentemente. Cada frase, bem meditada, é fonte de preciosos ensinamentos. Sei-o bem: há mais de vinte anos que faço o mesmo e o que aprendi é uma ínfima parte do que ali ainda tenho para aprender.

Sê pois bem-vindo, meu Irmão, e hoje festeja. O teu trabalho podes começá-lo amanhã...

Rui Bandeira

3 comentários:

M. A. disse...

Quão honra será para um profano poder partilhar esse sentimento de irmandade. Quão honra é seguramente para um profano receber a marca de uma partilha fraterna, de toda uma loja que lhe dá a possibilidade de renascer e de fortalecer os seus princípios de honradez e de liberdade.
No fundo quão honrado um profano se deve de sentir por ser aceite no seio de uma “família” de homens bons, livres e honrados, nos dias em que hoje vivemos, onde a tal dignidade, a honradez e os princípios de respeito pelos outros, são rapidamente postos de parte e apagados, em prol de vícios e proveitos próprios sem que para os poder atingir se olhe a meios e a princípios de respeito pela dignidade dos outros e ou mesmo pelo direito à liberdade de reserva e privacidade a que cada um de nós e as suas famílias tem direito.
Bem-haja os ideais maçónicos e o que eles representam, seguramente que esta nossa sociedade seria bem mais produtiva, proactiva e verdadeiramente livre se quem o poder detêm deles fizesse honra, com clareza e sensatez, de os aplicar e fazer cumprir.

Kolob disse...

Gostaria de dar os meus parabéns por este vosso texto. São palavras repletas, no meu entender, de muitos ensinamentos. Sem dúvida também que esta é uma excelente carta de boas-vindas e que, no meu entender, fará qualquer um que seja recebido maçon, sentir-se muito bem, útil e entusiasmado com o caminho que acabou de iniciar, sem medo de partilhar o que tem para dar, e sem medo de julgamentos, porque é recebido entre irmãos!

No entanto, espero sinceramente que as palavras sejam mais do que palavras (e acredito que os homens livres e bons costumes saberão valorizar o dom de utilizar a palavra), pois mais importante do que ler esta excelente carta de boas-vindas é que cada um de vós faça, com que aqueles que são recebidos maçons, consigam sentir que palavras como estas expressas neste texto, são muito mais do que as palavras conseguem descrever…

JPA disse...

Excelente Prancha.

Cumprimentos
JPA